Incidente em Antares: atemporal


Incidente em Antares permite uma leitura que ultrapassa a narrativa fantástica e se aproxima diretamente da lógica da psicanálise e dos impasses sociais contemporâneos, quando os mortos se levantam e passam a circular pela cidade, o que está em jogo não é apenas um recurso literário, mas uma encenação quase literal do que Sigmund Freud descreveu como retorno do recalcado: aquilo que foi reprimido não desaparece, apenas aguarda condições para retornar, frequentemente de forma perturbadora. 

Veríssimo seria freudiano?

Em Antares, tudo aquilo que a cidade tentou enterrar — corrupção, violência, hipocrisia, desigualdade — retorna encarnado nos próprios mortos, que passam a dizer o que os vivos não suportam ouvir. Essa irrupção pode ser aproximada do que Jacques Lacan conceitua como Real, isto é, aquilo que escapa à simbolização e que, quando emerge, desorganiza as estruturas de sentido e expõe a fragilidade das construções sociais.

Aqui o Real e a Realidade são sinônimos?

A cidade de Antares funciona, então, como um grande sintoma coletivo, no qual as relações sociais são sustentadas por pactos de silêncio, encobrimentos e ficções compartilhadas que garantem uma aparência de ordem. No entanto, como em qualquer formação sintomática, essa organização é instável e fadada à ruptura. Quando os mortos passam a denunciar publicamente os segredos da cidade, o que se evidencia não é apenas a falência moral dos indivíduos, mas o colapso de toda uma estrutura simbólica incapaz de sustentar a verdade.

O que seria mais sintomático que a verdade que não se sustenta?

 Nesse ponto, a leitura lacaniana permite pensar a crise da função do Nome-do-Pai, ou seja, a fragilização das instâncias que organizam a lei e regulam o laço social. Em Antares, as autoridades são ridicularizadas, a lei perde sua eficácia e o campo simbólico se mostra insuficiente para conter o que irrompe, abrindo espaço para a invasão do real — figurada, aqui, pelos mortos que caminham e falam.

Essa dinâmica não permanece restrita à ficção. Nos problemas sociais contemporâneos, observa-se um movimento semelhante, no qual aquilo que é sistematicamente negado ou recalcado retorna sob a forma de crises, escândalos e sofrimento psíquico generalizado. A explosão de denúncias públicas, a intensificação da polarização política, o descrédito nas instituições e o aumento de sintomas como ansiedade e depressão podem ser compreendidos como manifestações desse retorno insistente do que não foi simbolizado. 

Como negar algo que se manifesta na dor e na angústia?

Ao mesmo tempo, a sociedade contemporânea desenvolve estratégias defensivas para evitar o confronto com essa verdade, produzindo excesso de informação, narrativas simplificadas e até mesmo distorções deliberadas que funcionam como barreiras contra o insuportável. Diferentemente de Antares, onde os mortos enunciam uma verdade direta e devastadora, hoje essa verdade aparece fragmentada, difusa e frequentemente capturada por jogos de poder e manipulação.

No entanto, a provocação central permanece a mesma: não é a irrupção do que estava oculto que constitui o verdadeiro problema, mas a recusa persistente em reconhecer aquilo que já se sabe. A psicanálise indica que o sofrimento não decorre apenas da ignorância, mas sobretudo daquilo que o sujeito sabe e, ainda assim, insiste em não querer saber. 

Assim, Antares se revela menos como uma cidade fictícia e mais como uma metáfora estrutural da vida social, na qual o recalcamento coletivo sustenta uma ordem precária que, inevitavelmente, entra em colapso. Nesse sentido, tanto na literatura quanto na clínica e na sociedade contemporânea, impõe-se a mesma lógica: aquilo que é negado retorna, e retorna com uma força proporcional ao esforço feito para silenciá-lo.

Então, por onde nós elaboramos esses atravessadores?

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