sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Leveza

 



A leveza de andar sobre as próprias decisões não se confunde com ausência de conflito ou com a ilusão de uma vida sem impasses. Ao contrário, ela emerge justamente quando o sujeito reconhece que decidir implica perda, renúncia e responsabilidade. Em termos psicanalíticos, essa leveza não é natural nem espontânea: ela é construída a partir do encontro do sujeito com seu desejo e com os limites que o estruturam.

Em Freud, a decisão está sempre atravessada pelo conflito entre instâncias psíquicas. O eu decide sob a pressão do isso, das exigências pulsionais, e do supereu, com suas interdições e ideais. Quando o sujeito permanece alienado às demandas superegóicas ou tenta recalcar o conflito inerente à escolha, a decisão tende a ser vivida como peso, culpa ou angústia excessiva. A leveza possível surge quando o eu consegue sustentar a ambivalência, aceitando que toda escolha implica sofrimento e que não há garantia de satisfação plena. Assim, decidir torna-se menos um fardo moral e mais um ato situado na realidade psíquica do sujeito.

Em Jung, a leveza relaciona-se ao processo de individuação. Andar sobre as próprias decisões significa aproximar-se do Self, integrando aspectos conscientes e inconscientes da personalidade. Quando o sujeito vive dominado pela persona — isto é, pela adaptação excessiva às expectativas externas — suas decisões são vividas como impostas, rígidas e pesadas. A leveza aparece quando há escuta dos símbolos, dos afetos e das imagens do inconsciente, permitindo escolhas mais coerentes com a totalidade psíquica. Não se trata de eliminar a tensão interna, mas de habitá-la de modo mais autêntico.

Já em Lacan, a decisão ganha estatuto ético ao ser pensada a partir do desejo. A leveza de sustentar uma decisão está diretamente ligada à posição do sujeito frente ao seu desejo e à falta estrutural que o constitui. Quando o sujeito decide para satisfazer o Outro — seja o Outro social, familiar ou simbólico — a escolha tende a produzir angústia e ressentimento. Em contrapartida, quando a decisão se orienta pela ética do desejo, mesmo que traga consequências difíceis, ela pode ser sustentada com maior leveza. Essa leveza não é conforto, mas a possibilidade de não se trair a si mesmo.

Dessa forma, andar com leveza sobre as próprias decisões não significa caminhar sem tropeços, mas aceitar que o chão é marcado pela falta, pelo conflito e pela incompletude. Freud aponta a inevitabilidade do conflito psíquico, Jung ressalta a integração da totalidade do ser, e Lacan enfatiza a fidelidade ao desejo. Entre esses referenciais, a leveza aparece não como um estado ideal, mas como um efeito subjetivo de assumir a autoria da própria história, reconhecendo limites, perdas e, sobretudo, a singularidade do próprio caminho.

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