Lacan nos ensina que amar é dar o que não se tem. Clarice, por sua vez, escreve como quem oferece palavras sabendo que elas nunca dão conta do vivido. Ambos tocam o mesmo ponto: a falta como condição. Na experiência clínica cotidiana, o sujeito ama a partir desse vazio, esperando que o outro o salve da angústia de existir. Ama não porque tem algo a oferecer, mas porque lhe falta algo fundamental. Amar, assim como viver em Clarice, é sempre arriscado.
O sintoma aparece, então, como uma maneira singular de suportar esse risco. Na clínica, percebe-se que o sujeito ama segundo o seu sintoma, repetindo encontros que ferem, abandonos conhecidos, formas de dor que, paradoxalmente, garantem certa continuidade do eu. Clarice escreve personagens que se agarram a rotinas, pequenas certezas ou relações sufocantes como forma de não serem lançadas ao abismo do viver. Do mesmo modo, o sintoma funciona como um arranjo possível diante do real: uma tentativa de organizar aquilo que não tem forma.
Lacan afirma que não há relação sexual, no sentido de uma complementaridade possível. Clarice escreve o desencontro como essência da experiência humana. O amor, na clínica, se revela nesse mesmo ponto de impossibilidade: espera-se do outro o impossível, e o sofrimento nasce dessa aposta. Ainda assim, o sujeito insiste, porque viver — como amar — não se faz fora do laço, mesmo quando ele dói.
Na transferência, esse movimento se atualiza. O analisando ama o analista como quem supõe ali um saber sobre como viver melhor, como sofrer menos, como existir sem tropeços. Clarice diria que viver não tem manual; Lacan diria que o saber está no inconsciente e só aparece na fala. A análise, então, não oferece respostas prontas, mas sustenta o espaço onde o sujeito pode se confrontar com sua própria forma de viver e amar.
O trabalho analítico não visa ensinar a amar corretamente nem a eliminar o sintoma. Trata-se, antes, de permitir que o sujeito se aproxime de sua experiência sem tanto medo. Quando o sintoma pode ser lido, quando o amor deixa de ser apenas repetição cega, algo se desloca. Não se trata de cura no sentido clássico, mas de um modo mais ético de viver — no sentido clariciano: com menos defesas, menos certezas, mais responsabilidade pelo próprio desejo.
Assim, amor e sintoma, na clínica cotidiana, aparecem como modos de viver. Nem um nem outro prometem salvação. Ambos expõem o sujeito à falta, ao desencontro e ao real. Mas é justamente aí — nesse ponto onde não há garantias — que algo da vida, como queria Clarice, pode finalmente acontecer.



