sábado, 28 de março de 2026

"Me recuso a viver sem paixões. Tudo que eu vivo, tem o melhor de mim. Intensa, exagerada, desmedida, 8 ou 80, sem meio termo!"

Encontrar-se aos quarenta anos é, para muitas mulheres, menos um ponto de chegada e mais um reencontro com aquilo que sempre esteve latente. É como se, após anos respondendo às expectativas do mundo — da família, do trabalho, dos amores e das convenções — surgisse finalmente a possibilidade de olhar para si mesma com honestidade. Não mais como aquilo que esperavam que fosse, mas como aquilo que se tornou.

Simone de Beauvoir escreveu que “não se nasce mulher, torna-se mulher.” Essa frase, tantas vezes repetida, ganha uma dimensão especial quando atravessamos o tempo. Aos quarenta, muitas mulheres compreendem que tornar-se mulher é um processo contínuo: feito de escolhas, de rupturas, de perdas e de descobertas. É um caminho em que se aprende a desaprender os papéis impostos e a construir uma identidade própria, muitas vezes mais verdadeira do que qualquer versão anterior de si mesma.

Há algo de profundamente libertador nessa etapa da vida. A urgência de agradar diminui. A necessidade de corresponder a padrões começa a perder sentido. Aos poucos, nasce uma coragem silenciosa: a coragem de existir com autenticidade.

É nesse ponto que muitas mulheres se permitem dizer, sem culpa e sem medo:

“Me recuso a viver sem paixões. Tudo que eu vivo tem o melhor de mim. Intensa, exagerada, desmedida, oito ou oitenta, sem meio-termo.”

Não se trata de imaturidade ou excesso. Trata-se, na verdade, de consciência. Depois de tantas experiências, aprende-se que viver morno é uma forma silenciosa de ausência. Aos quarenta, muitas mulheres descobrem que a intensidade não é um defeito — é uma forma de presença no mundo.

Ser mulher nessa fase é aceitar as próprias contradições, reconhecer a própria história e, sobretudo, reivindicar o direito de viver segundo seus próprios termos. É compreender que a maturidade não precisa significar apagamento, mas pode ser justamente o momento em que a chama interior se torna mais clara.

Encontrar-se aos quarenta, portanto, não é tornar-se menos — é tornar-se mais. Mais inteira, mais consciente, mais livre. É perceber que, depois de tantos caminhos percorridos, talvez a maior descoberta seja esta: a de que a própria vida pode finalmente ser vivida com a intensidade que sempre mereceu.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Leveza

 



A leveza de andar sobre as próprias decisões não se confunde com ausência de conflito ou com a ilusão de uma vida sem impasses. Ao contrário, ela emerge justamente quando o sujeito reconhece que decidir implica perda, renúncia e responsabilidade. Em termos psicanalíticos, essa leveza não é natural nem espontânea: ela é construída a partir do encontro do sujeito com seu desejo e com os limites que o estruturam.

Em Freud, a decisão está sempre atravessada pelo conflito entre instâncias psíquicas. O eu decide sob a pressão do isso, das exigências pulsionais, e do supereu, com suas interdições e ideais. Quando o sujeito permanece alienado às demandas superegóicas ou tenta recalcar o conflito inerente à escolha, a decisão tende a ser vivida como peso, culpa ou angústia excessiva. A leveza possível surge quando o eu consegue sustentar a ambivalência, aceitando que toda escolha implica sofrimento e que não há garantia de satisfação plena. Assim, decidir torna-se menos um fardo moral e mais um ato situado na realidade psíquica do sujeito.

Em Jung, a leveza relaciona-se ao processo de individuação. Andar sobre as próprias decisões significa aproximar-se do Self, integrando aspectos conscientes e inconscientes da personalidade. Quando o sujeito vive dominado pela persona — isto é, pela adaptação excessiva às expectativas externas — suas decisões são vividas como impostas, rígidas e pesadas. A leveza aparece quando há escuta dos símbolos, dos afetos e das imagens do inconsciente, permitindo escolhas mais coerentes com a totalidade psíquica. Não se trata de eliminar a tensão interna, mas de habitá-la de modo mais autêntico.

Já em Lacan, a decisão ganha estatuto ético ao ser pensada a partir do desejo. A leveza de sustentar uma decisão está diretamente ligada à posição do sujeito frente ao seu desejo e à falta estrutural que o constitui. Quando o sujeito decide para satisfazer o Outro — seja o Outro social, familiar ou simbólico — a escolha tende a produzir angústia e ressentimento. Em contrapartida, quando a decisão se orienta pela ética do desejo, mesmo que traga consequências difíceis, ela pode ser sustentada com maior leveza. Essa leveza não é conforto, mas a possibilidade de não se trair a si mesmo.

Dessa forma, andar com leveza sobre as próprias decisões não significa caminhar sem tropeços, mas aceitar que o chão é marcado pela falta, pelo conflito e pela incompletude. Freud aponta a inevitabilidade do conflito psíquico, Jung ressalta a integração da totalidade do ser, e Lacan enfatiza a fidelidade ao desejo. Entre esses referenciais, a leveza aparece não como um estado ideal, mas como um efeito subjetivo de assumir a autoria da própria história, reconhecendo limites, perdas e, sobretudo, a singularidade do próprio caminho.

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sábado, 31 de janeiro de 2026

Amor, o amor


 Na clínica, o amor raramente se apresenta como promessa de felicidade. Ele chega como experiência, no sentido mais radical do termo: algo que atravessa o sujeito, o desorganiza e o convoca a viver. Nesse ponto, a escuta analítica encontra uma curiosa ressonância com Clarice Lispector, para quem viver não é um estado confortável, mas um acontecimento que expõe o sujeito ao que não sabe, ao que não domina e ao que não pode nomear inteiramente.

Lacan nos ensina que amar é dar o que não se tem. Clarice, por sua vez, escreve como quem oferece palavras sabendo que elas nunca dão conta do vivido. Ambos tocam o mesmo ponto: a falta como condição. Na experiência clínica cotidiana, o sujeito ama a partir desse vazio, esperando que o outro o salve da angústia de existir. Ama não porque tem algo a oferecer, mas porque lhe falta algo fundamental. Amar, assim como viver em Clarice, é sempre arriscado.

O sintoma aparece, então, como uma maneira singular de suportar esse risco. Na clínica, percebe-se que o sujeito ama segundo o seu sintoma, repetindo encontros que ferem, abandonos conhecidos, formas de dor que, paradoxalmente, garantem certa continuidade do eu. Clarice escreve personagens que se agarram a rotinas, pequenas certezas ou relações sufocantes como forma de não serem lançadas ao abismo do viver. Do mesmo modo, o sintoma funciona como um arranjo possível diante do real: uma tentativa de organizar aquilo que não tem forma.

Lacan afirma que não há relação sexual, no sentido de uma complementaridade possível. Clarice escreve o desencontro como essência da experiência humana. O amor, na clínica, se revela nesse mesmo ponto de impossibilidade: espera-se do outro o impossível, e o sofrimento nasce dessa aposta. Ainda assim, o sujeito insiste, porque viver — como amar — não se faz fora do laço, mesmo quando ele dói.

Na transferência, esse movimento se atualiza. O analisando ama o analista como quem supõe ali um saber sobre como viver melhor, como sofrer menos, como existir sem tropeços. Clarice diria que viver não tem manual; Lacan diria que o saber está no inconsciente e só aparece na fala. A análise, então, não oferece respostas prontas, mas sustenta o espaço onde o sujeito pode se confrontar com sua própria forma de viver e amar.

O trabalho analítico não visa ensinar a amar corretamente nem a eliminar o sintoma. Trata-se, antes, de permitir que o sujeito se aproxime de sua experiência sem tanto medo. Quando o sintoma pode ser lido, quando o amor deixa de ser apenas repetição cega, algo se desloca. Não se trata de cura no sentido clássico, mas de um modo mais ético de viver — no sentido clariciano: com menos defesas, menos certezas, mais responsabilidade pelo próprio desejo.

Assim, amor e sintoma, na clínica cotidiana, aparecem como modos de viver. Nem um nem outro prometem salvação. Ambos expõem o sujeito à falta, ao desencontro e ao real. Mas é justamente aí — nesse ponto onde não há garantias — que algo da vida, como queria Clarice, pode finalmente acontecer.

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quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

'O sintoma é poesia cifrada esperando ser lida'

Fernanda sempre me manda alguma postagem, seja sobre memes, seja sobre seriedades. Pessoas funcionam como muitas coisas - desde lembretes a motivadores. Nesse dia, ela foi ambos.

 Esse era um post  paradoxalmente entre ambos, mas a frase título dessa postagem me deu um insight sobre o que é sintoma em Psicanálise.

Nós, psicanalistas, sempre aprendemos vários conteúdos nos livros, nos artigos, nas palestras metódicas  que, em muitas vezes, nos dão definições de conceitos de uma forma seca, apática, crua. É no dia a dia, nas conversas espontaneas que vivenciamos as verdadeiras experiencias, é onde o conceitos se materializa e nós podemos vive-lo.  

Nós, psicanalistas, aprendemos grande parte do nosso ofício por meio de livros, artigos e exposições teóricas que, não raro, apresentam os conceitos de maneira árida, como se pudessem ser apreendidos fora da experiência. No entanto, à luz de Lacan, torna-se evidente que o saber teórico jamais se confunde com o saber do inconsciente. O primeiro organiza, sistematiza e nomeia; o segundo emerge na fala, no tropeço, no equívoco e no laço com o outro.

É no cotidiano — nas conversas espontâneas, nos encontros fortuitos e, sobretudo, na clínica — que o conceito ganha corpo. Não porque o sujeito “aplique” a teoria à realidade, mas porque é interpelado por ela a partir do real que irrompe. O conceito lacaniano não visa recobrir o real, mas circunscrevê-lo, marcando justamente aquilo que escapa à simbolização plena. Assim, no ato clínico, o analista não se apoia em definições fechadas, mas na escuta do significante em sua articulação singular.

Lacan nos ensina que é na ordem do discurso que o sujeito se constitui. O saber que importa à psicanálise não é o saber acumulado, mas o saber suposto, aquele que se instala na transferência e que só se revela na medida em que o sujeito fala. Desse modo, os conceitos — como desejo, gozo, falta ou Outro — deixam de ser categorias abstratas e passam a operar como operadores clínicos, atualizados a cada encontro.

É justamente na experiência viva da fala que o analista se confronta com os limites da teoria. O real, entendido como aquilo que não cessa de não se escrever, impõe-se como furo no saber, exigindo do analista uma posição ética: sustentar a falta, não tamponá-la com explicações. Assim, a formação do psicanalista não se esgota na leitura, mas se produz na experiência, na análise pessoal, na supervisão e na escuta atenta do que emerge para além do sentido.

Desse modo, a teoria lacaniana não se oferece como um manual de aplicação, mas como um discurso que orienta o analista a suportar o não-saber. É na tensão entre o saber teórico e o encontro com o real do sujeito que os conceitos se encarnam, deixando de ser palavras mortas para se tornarem experiência viva. 
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domingo, 30 de junho de 2024

Busca por independência



 É incrível perceber como, ao longo dos anos, nossa busca por independência, tanto financeira quanto psicológica, nos molda e transforma nossas relações. Esse relato reflete muito bem um pouco dessa jornada, mostrando a complexidade de se libertar das expectativas alheias, especialmente das familiares.

Planejar um super presente  para você mesme, seja de de aniversário, seja de puro narcisismo, ou whatever, algo tão desejado e cuidadosamente planejado, é um marco significativo nessa trajetória de independência. A reação da sua mãe/pai/pãe, com aquele "entendi" retumbante, é uma ilustração perfeita de como, mesmo quando estamos confiantes e preparades, ainda podemos ser abalades pelas opiniões daquelos que nos são mais próximes.

Reconhecer a linha tênue entre prudência e insegurança é fundamental. Ser capaz de tomar decisões por conta própria e aceitar as consequências dessas escolhas é um sinal claro de maturidade. É romper laços de dependência emocional para alcançar a verdadeira autonomia.

Ao sair de casa com ou sem ajuda dos pais/mães/responsáveis, demonstramos uma força e determinação que muitos não têm. Essa independência conquistada é um testemunho da nossa capacidade de navegar pelo mundo por conta própria.

Aproveitemos ao máximo nossos presentes para nós mesmes. Viajar, ficar em hotéis lindos e comer em lugares incríveis são experiências que, além de celebrarem suas conquistas, também reforçam sua autonomia e liberdade. Nós merecemos isso e muito mais.

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