Deeper, Stronger, Prettier


"Interview with the Vampire" foi um dos primeiros filmes de horror que assisti nos anos de 1990. Quando adolescente, pude revisitar tal obra através do livro original em inglês. Nascia um amor pela escrita sobrenatural, dark, e filosófica de Anne Rice.

Devorei, subsequentemente, todos os Livros das Crônicas Vampirescas (The Vampire Chronicles), e das Bruxas Mayfair. Tais livros não só me faziam vaguear em suas tramas, mas também me faziam refletir juntos aos seus personagens e contextos sobre Religião, Sentimentos, Amor, Filosofia, Psicologia, dentre vários e vários temas que foram maravilhosamente retratados pela saudosa autora.

São narrativas que se prestam de maneira singular a uma leitura ampla, muito mais do que uma história sobre vampiros, são investigações sobre desejo, identidade, culpa, amor e a busca por significado diante da imortalidade. Conhecer tais obras me fizeram sair das minhas caixinhas de "certezas".

Vamos refletir sobre os personagens-protagonistas.

Louis representa um sujeito permanentemente dividido - e que autora iria esclarecer que, de uma certa forma, Louis a representava nos contos. O vampirismo não inaugura seu sofrimento; apenas torna eterna uma cisão que já existia. Seu conflito entre pulsão e moralidade faz com que a fome de sangue se torne metáfora para desejos que não conseguem ser plenamente aceitos. Cada vítima é também um encontro com aquilo que ele tenta reprimir em si mesmo. Sua culpa não nasce apenas dos atos que comete, mas da incapacidade de reconciliar quem é com quem acredita que deveria ser. Sua mudança de vítimas - de pessoas para animais - pode ser lida como um deslocamento do que é desejado pelo que pode ser aceito.

Mas, consegue sustentar? 

Lestat, por outro lado, encarna uma figura sedutora que transforma o desejo em linguagem. Similarmente, a autora lhe indentifica como aquele que ela queria ser. Seu fascínio não reside apenas na beleza ou no poder, mas na liberdade com que habita seus impulsos. Ele convida Louis a abandonar a culpa e a entregar-se à intensidade da existência. 

Existir e viver não são necessariamente sinônimos.

Há nele algo de narcísico e profundamente apaixonado: ama como quem deseja ser adorado, e seduz como quem acredita que a eternidade só tem valor quando refletida no olhar do outro.

Suas crias, muitas vezes, são indissociáveis a si.

Claudia seja, talvez, a personagem mais trágica de Interview with the Vampire. Condenada a habitar para sempre o corpo de uma criança enquanto sua mente amadurece ao longo das décadas, ela personifica uma das formas mais cruéis de aprisionamento psíquico: possuir uma identidade em constante desenvolvimento sem jamais poder expressá-la plenamente no próprio corpo. Para a autora, Claudia é a representação artista e imortalizada de sua filha saudosa.

Sob uma perspectiva inconsciente, Claudia representaria o conflito entre o desejo de individuação e a impossibilidade de alcançar uma identidade integrada. Ela não luta apenas contra seus criadores, Louis e Lestat; luta contra o espelho, contra o tempo e contra uma imagem que jamais acompanha sua subjetividade. 

Seu corpo infantil torna-se um cárcere permanente, produzindo uma angústia que atravessa todas as suas relações. Sua agressividade, sua inteligência e sua rebeldia podem ser compreendidas como tentativas desesperadas de romper os limites impostos por uma existência que lhe foi escolhida, e não consentida.

E, nessa nova serie, esses personagens se apresentam com uma roupagem que expande suas emoções, suas experiências e suas relações, como a sensualidade da série que busca transcender o erotismo físico. 
Alimentar-se torna-se um ritual de intimidade absoluta. 
O sangue substitui o toque; a mordida ocupa o lugar do beijo; a entrega do corpo converte-se em comunhão. O desejo circula constantemente entre violência e ternura, revelando que amar, para aqueles personagens, é também correr o risco de ser consumido pelo outro.

Mas, a série, o filme e o livro fazem uma pergunta radical: o que resta quando a morte deixa de existir?

A finitude confere urgência e sentido à vida. Em Interview with the Vampire, a imortalidade elimina essa urgência. O tempo deixa de ser precioso e passa a ser um vazio interminável. Os personagens acumulam séculos, mas continuam famintos — não apenas por sangue, mas por propósito.

Louis procura um significado que justifique sua existência eterna. Sua angústia não decorre apenas da monstruosidade, mas da sensação de que viver indefinidamente não responde à pergunta essencial: "para quê?". A imortalidade revela que sobreviver e viver são experiências completamente distintas.

É justamente nesse ponto que a adoração assume um papel central. Os vampiros buscam incessantemente alguém que os veja como extraordinários. Desejam ser contemplados, desejados, escolhidos. A adoração funciona como tentativa de preencher um vazio existencial que nunca se fecha completamente. Porém, quando a identidade depende exclusivamente do olhar do outro, o amor transforma-se em dependência, e a eternidade torna-se um ciclo de abandono, ciúme e reconciliação.

A sensualidade da obra nasce dessa tensão constante entre beleza e destruição. 
A contradição se torna alimento diário.
O corpo nunca é apenas um corpo: é promessa de prazer, alimento, companhia e condenação. Cada gesto delicado carrega uma ameaça silenciosa, e cada demonstração de afeto convive com a possibilidade da perda. A estética exuberante da narrativa não mascara o sofrimento; ao contrário, torna-o ainda mais fascinante. 

O belo e o terrível coexistem sem se anularem.

No encontro proposto, Interview with the Vampire revela uma das mais profundas contradições da condição humana: podemos possuir tempo infinito, beleza incomparável e poder absoluto, e ainda assim permanecer sedentos. 

A falta é permanente 

Porque a fome mais devastadora não é a do sangue, mas a de sermos amados de maneira que nossa existência encontre um sentido. A obre nos sugere que nenhuma eternidade é suficiente para quem ainda não descobriu por que continua vivendo — e que nenhuma paixão, por mais arrebatadora e sensual que seja, consegue substituir a difícil tarefa de reconciliar-se consigo mesmo.

0 Comments:

Postar um comentário

Designed by OddThemes | Distributed by Gooyaabi