Esse symbolicum est

Ser psicanalista e escrever crônicas é habitar dois territórios que, no fundo, falam da mesma matéria: o humano em sua forma mais crua e, ao mesmo tempo, mais simbólica. No consultório, escuto o não dito, o intervalo entre as palavras, o tropeço da linguagem que revela aquilo que insiste em retornar. Na escrita, transformo ecos dessa escuta em narrativas que, embora fictícias, carregam verdades profundas. A crônica me permite dar forma ao indizível, costurar afetos, contradições e silêncios em pequenos recortes do cotidiano. Já a psicanálise me ensina que nenhuma história é simples, que todo sujeito é atravessado por desejos, faltas e repetições. Escrever, então, torna-se uma extensão da escuta clínica: um exercício de sensibilidade diante da vida. Entre um atendimento e outro, percebo que as histórias não ficam presas ao setting terapêutico — elas transbordam. E é nesse transbordamento que nasce a crônica: como um gesto de tradução do invisível, como tentativa de tocar o outro sem invadi-lo. Ser psicanalista que escreve é, portanto, sustentar a delicadeza de olhar para o mundo sem reduzi-lo, permitindo que cada palavra carregue a complexidade de quem a inspira.

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