Passamos grande parte da vida desejando. Desejamos o amor, o reconhecimento, a paz, a chegada de algo que imaginamos que finalmente nos completará. É uma falta permanente. Vivemos como quem caminha em direção a uma promessa. E quando, enfim, alcançamos aquilo que tanto pedimos ao tempo, algo curioso acontece: muitas vezes já estamos olhando para outro horizonte.
Talvez seja porque aprender a conquistar seja mais fácil do que aprender a permanecer.
Se pensarmos com a delicadeza de Clarice Lispector, perceberemos que o verdadeiro acontecimento da vida não está apenas no instante da conquista, mas na capacidade de sentir o que nos atravessa quando algo finalmente chega até nós. Clarice nos ensinou que viver não é simplesmente acumular acontecimentos — é deixar que eles nos toquem. Que Eles nos atravessem.
Desfrutar exige um tipo raro de coragem: a coragem de parar. De respirar dentro do momento. De reconhecer que aquilo que desejamos já está, de alguma forma, acontecendo.
Porque a vida não é apenas feita de grandes chegadas. Ela também é feita desses instantes quase invisíveis em que percebemos, com uma certa surpresa silenciosa, que aquilo que buscávamos já repousa em nossas mãos.
E então entendemos algo que talvez seja uma forma de sabedoria: não basta alcançar a vida.
É preciso habitá-la.

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