Até aquela noite.
Ele surgiu da penumbra. Um homem de trinta e poucos anos, mal vestido, o corpo denunciando o excesso — álcool, talvez outras drogas — e na mão, uma faca. Não reagi. Não havia heroísmo em mim, apenas lucidez.
Queria meu celular e minha carteira — coisas que, ironicamente, eu nem levava. Restava a mochila. Minha mochila: carregada de livros, cadernos, fragmentos de mim. Para ele, supérfluos. Para mim, quase sagrados.
Enquanto retirava minhas coisas, algo estranho aconteceu. Um deslocamento. Não senti raiva. Não senti ódio. Senti pena.
E isso me escandalizou mais do que a própria faca.
Ali estava um homem que poderia estar vivendo outra história — trabalhando, estudando, construindo algo — mas que se perdera num caminho de dissolução. Não vi um inimigo. Vi uma ruína humana ainda pulsando.
Deixei a mochila vazia para ele.
E então veio o inesperado.
Como se algo nele tivesse vacilado, começou a falar. Disse que era a primeira vez, que precisava comer, que pensava até em devolver. Falava demais, repetia-se, como se tentasse convencer mais a si mesmo do que a mim.
Na minha mente, uma frase se formou inteira, sem esforço:
“Deus vai te ajudar.”
E eu disse.
Ele se chocou. Talvez esperasse medo. Ou revolta. Ou um grito por socorro. Mas encontrou algo que não cabia naquele roteiro.
Repeti. Calmamente. Quase como um gesto.
“Deus vai te ajudar.”
Não argumentei. Não o confrontei. Não o absolvi. Apenas disse.
Virei as costas e fui embora.
Ele continuou falando, mas já não era sobre mim.
Cheguei em casa bem. Dormi bem. Acordei melhor ainda.
E, pela primeira vez, tive a sensação de que começava — ainda que de forma muito pequena — a entender o que significa amar o outro não apesar da sua miséria, mas exatamente ali, dentro dela.
Talvez seja isso que se aproxima de Cristo.

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