Existe domínio — e isso não é metáfora,
é estrutura.
Não nasce do acaso,
nasce da forma como o mundo foi organizado.
Existe domínio de um sobre o outro?
Existe — e se repete,
como um refrão histórico que muda de roupa,
mas não de lógica.
Existe domínio do branco sobre o negro?
Existe — inscrito não só na pele,
mas na história que ensinou quem manda
e quem deve abaixar os olhos.
Existe domínio do rico sobre o pobre?
Existe — e aqui a engrenagem aparece nua:
não é sobre mérito,
é sobre quem possui e quem vende o próprio tempo.
Como diria Karl Marx,
não é o indivíduo que domina —
é a relação.
É a classe.
É o modo de produção que fabrica senhores
e, ao mesmo tempo, fabrica dependentes.
Existe domínio do hetero sobre o homo?
Existe — porque até o desejo
foi capturado por normas,
disciplinado, nomeado, permitido ou negado.
E então alguém pergunta:
onde entra a dialética nisso tudo?
A dialética não é um conceito distante,
não é um jogo elegante de ideias.
Ela é o choque —
o atrito —
o incômodo.
Em Materialismo Histórico,
a história não anda em linha reta:
ela se move por contradições.
O rico precisa do pobre —
mas o pobre não aceita, para sempre, precisar.
O dominante precisa do dominado —
mas o dominado carrega, em silêncio ou em grito,
a possibilidade da ruptura.
É aí que a dialética deixa de ser teoria
e vira carne.
Porque toda dominação
traz dentro de si a sua própria negação.
Toda ordem
carrega a semente do colapso.
E o que parece estável
é, na verdade, tensão acumulada.
O branco que domina
teme perder o lugar.
O rico que acumula
depende de quem produz.
O hetero que normatiza
se sustenta em um padrão que precisa ser repetido
como se fosse natural.
Nada disso é natural.
Tudo isso é histórico.
E se é histórico,
é passageiro.
A dialética não consola —
ela expõe.
Ela mostra que o mundo não está pronto,
está em disputa.
E talvez o mais incômodo seja isso:
não existe domínio sem fissura.
Não existe poder sem risco.
Porque, no fundo,
toda relação de domínio
é também uma relação de medo.

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