Sentir pena dos culpados é trair os inocentes - Vitor Hugo

 



A frase “sentir pena dos culpados é trair os inocentes” soa como um veredito ético definitivo, uma linha reta entre justiça e lealdade. No entanto, quando atravessamos esse enunciado por Jacques Lacan, Baruch Spinoza e Friedrich Nietzsche, ela se desfaz em tensões mais complexas — menos confortáveis, mas talvez mais verdadeiras.

Em Lacan, o sujeito não coincide consigo mesmo; ele é efeito da linguagem, dividido, faltante. O “culpado” não é apenas alguém que fez algo, mas alguém capturado em uma rede de significantes, marcado por um desejo que nem ele domina. A culpa, nesse sentido, não é apenas jurídica, mas estrutural: há sempre algo no sujeito que escapa ao controle consciente. 

Sentir pena, então, não significa inocentar, mas reconhecer que o ato não esgota o sujeito. Reduzi-lo ao seu crime é ceder à tentação de apagar a dimensão do inconsciente — e isso, paradoxalmente, empobrece até mesmo a ideia de responsabilidade.

Já em Spinoza, a questão se desloca do julgamento moral para a compreensão das causas. Para ele, os afetos — como a piedade — não são virtudes em si, mas estados que podem aumentar ou diminuir nossa potência de agir. 

Sentir pena pode ser uma paixão triste, que nos paralisa, mas também pode abrir caminho para o entendimento das determinações que levaram alguém a agir como agiu. 

O culpado, aqui, não é um “mal absoluto”, mas um efeito de encadeamentos causais. Compreender não é absolver, mas sair da lógica da vingança para uma ética mais racional, onde a justiça não é movida por ódio, mas por necessidade.

Nietzsche, por sua vez, desconfia profundamente da compaixão. Para ele, a piedade pode ser uma forma refinada de ressentimento, uma moral que se alimenta da fraqueza e nivela todos por baixo. Ao sentir pena do culpado, corre-se o risco de enfraquecer a afirmação da vida, transformando a dor em valor e perpetuando uma moral de rebanho. 

No entanto, Nietzsche também desmonta a noção simplista de culpa: aquilo que chamamos de “culpado” é, muitas vezes, produto de forças, impulsos, vontades de poder em conflito. 

Não há um sujeito soberano plenamente responsável, mas um campo de forças em disputa. Assim, a frase inicial começa a vacilar. Sentir pena dos culpados pode, sim, em certos contextos, obscurecer a dor dos inocentes — sobretudo quando a empatia se transforma em desculpa e apaga a responsabilidade. 

Mas também pode ser um gesto que resiste à simplificação moral, que recusa a fantasia de um mal puro e isolado.

Talvez o verdadeiro risco não esteja em sentir pena, mas em parar aí. Nem a condenação absoluta, nem a compaixão ingênua dão conta do humano. Entre Lacan, Spinoza e Nietzsche, o que emerge é uma ética mais difícil: sustentar a responsabilidade sem apagar a complexidade, reconhecer o sofrimento sem transformar a justiça em vingança, e, sobretudo, não ceder ao conforto de dividir o mundo em inocentes intocados e culpados irredeemáveis.

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