Estar no meio pode soar como conforto — como se ali, entre extremos, fosse possível sentir o amor vindo de todas as direções. E não é por acaso que essa imagem ressoa: a frase “Estar no meio é bom, desse jeito podemos sentir o amor por todos os lados” foi dita por Frankie Heck no episódio final de The Middle, encerrando a trajetória da família com uma espécie de síntese afetiva do que foi a série.
Mas, se deslocarmos essa ideia para uma leitura mais densa — quase psicanalítica —, o “meio” deixa de ser apenas um lugar de plenitude. Ele passa a ser também um ponto de tensão.
Porque estar no meio não é apenas receber amor de todos os lados; é, muitas vezes, sustentar o entre. Entre o que se deseja e o que se pode, entre o que se é e o que se espera ser. Em termos de Jacques Lacan, não há um centro cheio — há uma falta que organiza esse lugar. O amor, então, não nos cerca como um campo homogêneo; ele nos atravessa, nos divide, nos convoca. Estar no meio, nesse sentido, é ocupar um lugar estruturalmente instável, onde o sujeito tenta costurar sentidos a partir daquilo que nunca se completa.
E há ainda um risco silencioso: no meio, pode-se escutar tantas vozes que a própria se dilui. O amor que vem de todos os lados pode acolher — mas também pode dispersar o sujeito, fazendo com que ele se perca naquilo que os outros demandam dele. O “centro” deixa de ser um ponto de equilíbrio e passa a ser um campo de forças, onde diferentes desejos se cruzam e disputam inscrição.
É aqui que a leitura de Baruch Spinoza abre uma outra via — menos trágica, talvez, mas não menos rigorosa. Para Spinoza, o afeto não é simplesmente algo que nos acontece de fora, mas uma variação na nossa potência de existir. Amar, portanto, não é estar rodeado de algo que nos completa, mas ser afetado de tal maneira que nossa potência de agir aumenta.
Nesse sentido, “estar no meio” poderia ser reinterpretado: não como um ponto passivo de recepção, mas como um lugar de encontro entre forças que podem tanto ampliar quanto diminuir nossa potência. Se o amor vem de todos os lados, a questão deixa de ser a quantidade ou a direção — e passa a ser a qualidade desses encontros. Eles nos fortalecem? Nos tornam mais ativos? Ou nos capturam em dependências que enfraquecem nossa autonomia?
Diferente da falta estrutural em Lacan, Spinoza não parte da ideia de um vazio constitutivo, mas de uma dinâmica contínua de composição entre corpos e afetos. Assim, estar no meio pode ser potente quando os encontros que nos atravessam compõem conosco — quando há uma espécie de harmonia que expande nossa capacidade de existir. Mas pode ser também um lugar de servidão, quando somos determinados por afetos que não compreendemos.
Talvez, então, a frase de Frankie Heck carregue uma beleza que ultrapassa sua aparente simplicidade. Ela aponta para um desejo profundamente humano: o de ser atravessado por vínculos, de estar implicado em uma rede de afetos. Mas, ao mesmo tempo, nos convida — mesmo que indiretamente — a perguntar: que tipo de amor é esse que nos alcança de todos os lados?
Porque, no fim, não basta estar no meio.
É preciso sustentar o que nos atravessa sem desaparecer nisso.
Entre a falta que nos move e a potência que nos constitui, o amor deixa de ser um círculo que nos envolve e passa a ser uma experiência que nos transforma. E talvez seja justamente aí — nesse meio instável, vivo, atravessado — que a existência ganha sua forma mais intensa.
Estar no meio, então, não é estar pleno.
É estar em relação.
E isso, por si só, já é uma forma de amor.

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