quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

'O sintoma é poesia cifrada esperando ser lida'

Fernanda sempre me manda alguma postagem, seja sobre memes, seja sobre seriedades. Pessoas funcionam como muitas coisas - desde lembretes a motivadores. Nesse dia, ela foi ambos.

 Esse era um post  paradoxalmente entre ambos, mas a frase título dessa postagem me deu um insight sobre o que é sintoma em Psicanálise.

Nós, psicanalistas, sempre aprendemos vários conteúdos nos livros, nos artigos, nas palestras metódicas  que, em muitas vezes, nos dão definições de conceitos de uma forma seca, apática, crua. É no dia a dia, nas conversas espontaneas que vivenciamos as verdadeiras experiencias, é onde o conceitos se materializa e nós podemos vive-lo.  

Nós, psicanalistas, aprendemos grande parte do nosso ofício por meio de livros, artigos e exposições teóricas que, não raro, apresentam os conceitos de maneira árida, como se pudessem ser apreendidos fora da experiência. No entanto, à luz de Lacan, torna-se evidente que o saber teórico jamais se confunde com o saber do inconsciente. O primeiro organiza, sistematiza e nomeia; o segundo emerge na fala, no tropeço, no equívoco e no laço com o outro.

É no cotidiano — nas conversas espontâneas, nos encontros fortuitos e, sobretudo, na clínica — que o conceito ganha corpo. Não porque o sujeito “aplique” a teoria à realidade, mas porque é interpelado por ela a partir do real que irrompe. O conceito lacaniano não visa recobrir o real, mas circunscrevê-lo, marcando justamente aquilo que escapa à simbolização plena. Assim, no ato clínico, o analista não se apoia em definições fechadas, mas na escuta do significante em sua articulação singular.

Lacan nos ensina que é na ordem do discurso que o sujeito se constitui. O saber que importa à psicanálise não é o saber acumulado, mas o saber suposto, aquele que se instala na transferência e que só se revela na medida em que o sujeito fala. Desse modo, os conceitos — como desejo, gozo, falta ou Outro — deixam de ser categorias abstratas e passam a operar como operadores clínicos, atualizados a cada encontro.

É justamente na experiência viva da fala que o analista se confronta com os limites da teoria. O real, entendido como aquilo que não cessa de não se escrever, impõe-se como furo no saber, exigindo do analista uma posição ética: sustentar a falta, não tamponá-la com explicações. Assim, a formação do psicanalista não se esgota na leitura, mas se produz na experiência, na análise pessoal, na supervisão e na escuta atenta do que emerge para além do sentido.

Desse modo, a teoria lacaniana não se oferece como um manual de aplicação, mas como um discurso que orienta o analista a suportar o não-saber. É na tensão entre o saber teórico e o encontro com o real do sujeito que os conceitos se encarnam, deixando de ser palavras mortas para se tornarem experiência viva. 
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