Nós, psicanalistas, aprendemos grande parte do nosso ofício por meio de livros, artigos e exposições teóricas que, não raro, apresentam os conceitos de maneira árida, como se pudessem ser apreendidos fora da experiência. No entanto, à luz de Lacan, torna-se evidente que o saber teórico jamais se confunde com o saber do inconsciente. O primeiro organiza, sistematiza e nomeia; o segundo emerge na fala, no tropeço, no equívoco e no laço com o outro.
É no cotidiano — nas conversas espontâneas, nos encontros fortuitos e, sobretudo, na clínica — que o conceito ganha corpo. Não porque o sujeito “aplique” a teoria à realidade, mas porque é interpelado por ela a partir do real que irrompe. O conceito lacaniano não visa recobrir o real, mas circunscrevê-lo, marcando justamente aquilo que escapa à simbolização plena. Assim, no ato clínico, o analista não se apoia em definições fechadas, mas na escuta do significante em sua articulação singular.
Lacan nos ensina que é na ordem do discurso que o sujeito se constitui. O saber que importa à psicanálise não é o saber acumulado, mas o saber suposto, aquele que se instala na transferência e que só se revela na medida em que o sujeito fala. Desse modo, os conceitos — como desejo, gozo, falta ou Outro — deixam de ser categorias abstratas e passam a operar como operadores clínicos, atualizados a cada encontro.
É justamente na experiência viva da fala que o analista se confronta com os limites da teoria. O real, entendido como aquilo que não cessa de não se escrever, impõe-se como furo no saber, exigindo do analista uma posição ética: sustentar a falta, não tamponá-la com explicações. Assim, a formação do psicanalista não se esgota na leitura, mas se produz na experiência, na análise pessoal, na supervisão e na escuta atenta do que emerge para além do sentido.